sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Uma parteira de três gerações

Pelas mãos de Dona Prazeres a vida pára de passar. Mesmo com os hospitais cheios de médicos, a parteira de Jaboatão não pode, nem quer aposentar a vocação e assim vai, ultrapassando a modernidade, fazendo partos como antigamente.


Por Carolina Sotero

Foi com sete meses que Maria dos Prazeres veio ao mundo. Contradições da vida. Porque apesar da pressa, a potiguar, que é filha e neta de parteira, depois que saiu do útero adquiriu personalidade calma. E não mudou, mesmo depois de 71 anos. A urgência por existir deve ter sido das mulheres de Jaboatão, onde mora até hoje. Por volta da década de 50, hospital era coisa tão rara no município que as grávidas da região só podiam contar com a mãe e avó de Dona Prazeres para ajudar na hora de parir os rebentos.

Nessa época, ela via a mãe acordar pelas madrugadas e sair mundo afora fazendo aquilo que chamava de “dom de Deus”. E não demorou para a menina sem medo, acompanhar a mãe que não a deixava fazer nada, além de observar. Os olhos que gostavam de ver, muitas vezes à luz de velas, um corpo dar à luz a outro, um dia cismou que sabia fazer mulher parir. Foi quando viu uma gata no quintal de casa agoniada em trabalho de parto que provou pra si mesma que o dom da avó também já era seu. No entanto, a mãe, que tinha responsabilidade de gente grande, não acreditou na filha que, até então, era só parteira de bicho.

Mas um dia a oportunidade bateu na porta de casa. “Mãe tinha saído para atender uma mulher e de repente chegou uma grávida lá em casa já para dar a luz. Eu disse que sabia fazer. A mulher acreditou e eu fiz”, relembra aos risos. Desse dia em diante, Maria dos Prazeres de Souza não era só filha de Carmelita de Souza, era também, com a benção da mãe, a mais nova parteira de Jaboatão. Mais uma mulher que nasceu para servir o povo.

Ser parteira é uma função tão antiga quanto a humanidade. Quando a primeira mulher precisou ter filho, alguém teve que ajudar e ali nasceu uma profissão. Mas ainda é atrevimento chamar um dos ofícios mais nobres e solicitados do mundo de profissão. No Brasil, as parteiras tradicionais ainda não são reconhecidas pelo governo. Apesar de existirem dois projetos de lei que buscam a regularização tramitando na Câmara dos Deputados, o reconhecimento da profissão ainda é um sonho antigo. Difícil de entender, porque a ação das parteiras na história são fatos incontestáveis. No Brasil, até 1808, não existia nas faculdades de medicina nenhuma disciplina que abordasse a obstetrícia. Antes disso, essa missão era somente das parteiras tradicionais, que, há incontáveis anos, trouxeram à vida filhos de abastados e necessitados.

Atualmente no Brasil, são feitos cerca de 2,6 milhões de partos por ano. Baseado neste número o Ministério da Saúde divulgou que 43% do total de partos são cesarianos. No setor público, o valor é ainda maior, chegando aos 80%. A exigência por auxílio médico e ambiente hospitalar é quase indiscutível, não apenas no caso de mulheres de classe média e alta, mas de quase toda a sociedade. “A ciência é o fetiche do mundo moderno. Há poucas gerações atrás, a opinião de uma parteira era mais ou igualmente requisitada que a de um médico. Havia essa admiração e esse respeito pelas pessoas que eram sábias pela prática. Então essas profissões hoje estão à margem, porque hoje tem espaço quem tem o aval científico”, explica o Professor de Psicologia Social Eduardo Fonseca.

Apesar do progresso das ciências médicas e da popularização do parto cesariano, o trabalho das antigas parteiras ainda está longe de acabar. Os números mostram que as “mãezinhas” do Brasil, como eram chamadas, podem estar esquecidas, mas não inativas. Não é ousadia dizer que o Brasil nasceu e tem nascido nas mãos das parteiras. Ainda hoje, elas são as responsáveis por mais de 400 mil partos por ano, que acontecem, principalmente, na região Norte e Nordeste. No mínimo, cinco mil foram feitos pelas mãos de Dona Prazeres, e todos eles sem óbito.

A experiência da parteira não se resumiu apenas àquilo que aprendeu com a mãe. Aos 24 anos, decidiu estudar mais e com muito esforço fez um curso de enfermeira-obstetra. Assim, Dona Prazeres conseguiu o passaporte para entrar no mundo dos médicos, trabalhou em hospitais de Jaboatão e Recife. “Tinha dia de chegar em casa e já ter que sair para fazer outro parto”, conta. Hoje, ela é um misto de teoria e prática. Sabe o nome de todos os remédios. Quando fala, mistura termos médicos com falas populares e não se cansa de trazer criança ao mundo. Ao atender pacientes de risco, indica a médicos e enfermeiras amigas. Mas reclama: “ainda há uma resistência dos médicos com as parteiras”.

Dona Prazeres nunca cobrou nada para fazer o que gosta. Mas isso também não foi empecilho para ela receber presentes e ofertas. A parteira já ganhou 400 reais, um relógio, um bolo e até um corte de pano para fazer vestido. “O que me deram eu aceitei. Porque eu tenho muita satisfação em ser parteira. Se as pessoas fossem satisfeitas na profissão, todo mundo dava mais certo na vida”. Se juntar avó, mãe e filha, são mais de 170 anos de trabalho que nunca parou no tempo, que decidiu mesmo com toda a modernidade servir a ordem vital da natureza.

Recentemente, essa senhora, já viúva, que mede pouco mais que 1 metro e meio de altura ganhou, um presente tão inesperado quanto o corte de pano. Mais um que não pediu, que simplesmente veio como reconhecido do trabalho. Esse não foi só por um parto, mas foi por todos os que já fez na vida. Na semana em que o mundo inteiro comemorou o dia da mulher, ela recebeu, junto com uma aeromoça, uma geneticista, uma líder feminista e uma política brasileira, o Prêmio Mulher Cidadã Bertha Lutz. A sessão especial aconteceu no Plenário do Senado Federal, “no dia 11 de Março de 2008”, não esquece Dona Prazeres. Ela estava lá, a mulher que andou há mais de 50 anos por ruas e casas de família “puxando menino”, estava em Brasília puxando, desta vez, uma salvas de palmas.

Foto de Armando Artoni
(mais fotos www.flickr.com/heroisnossosdecadadia)

1 comentários:

Mirelly Ferreira disse...

Oi amor, queria saber se vc tem o contato dela.
Me responde por favor.
Obrigada. <3

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